segunda-feira, outubro 22, 2018

A espada de Dâmocles

Será que consegues ouvir o eco ribombante do silêncio que arde dentro de ti? O bater compassado, apressado, violento do vazio? A intensa brisa perfumada a soledade?
É que não te enganes! Não há ninguém a ver o som dos teus sorrisos ou a escutar os teus olhares. Não te mintas! O passado não tem personificação possível, é miragem alucinogénica. Não te iludas! Nada há para além das interrogações permanentes: para quê, porquê, para quem?

domingo, dezembro 31, 2017

Sobre a desconstrução da memória


Lembro-me de ti todos os dias. Não sei se podia ser diferente… é que esquecer-me de ti seria como esquecer-me de mim próprio. E tu sabes que no fundo, tudo, sobretudo a nossa existência, não é mais do que apenas Memória. A memória das noites frias em que encostavas os teus pés gelados aos meus, dos sonos escarlates e saltitantes, dos grãos de areia e toalhas enrodilhadas, das grutas repletas de estalactites e estalagmites, dos abraços e das mãos perpetuamente entrelaçadas...
Talvez seja isso! Demorou demasiado, mas creio que finalmente compreendi a vastidão hercúlea do meu fracasso. É que hoje, mais do que alguma vez, tenho perfeita noção de que os fragmentos da minha materialidade presente – mas transitória – encontram apenas fundamento nas memórias de uma existência passada que se vai haurindo à medida que os segundos, numa sequência vertiginosa e imparável, perecem uns atrás dos outros. Memórias, seguramente, encobertas ou reconstruídas pelo Véu de Maya. Memórias que não podem, certamente, ser mais do que meras imagens reflexas e quimeras forjadas pela implacável passagem do tempo. Memórias de tal forma metamorfizadas que agora serão, garantidamente, pouco mais do que as substâncias amórficas e plasticizadas da tentativa frustrada de um processo catártico.
Diz-me ao ouvido, por favor, como é que se vive com o reconhecimento do fracasso absoluto? Como conservar o equilíbrio com a certeza de que somos somente o produto fátuo de recordações, de lembranças e de memórias que, aparentemente, nos envolvem como um manto protector, mas que, na verdade, apenas obnubilam a dimensão intrínseca de um desaparecimento gradual e certo? Como admitir que a nossa finitude não é apenas a inevitabilidade de um futuro mais ou menos distante, mas a hodiernidade inconfessável do momento presente? É que, na verdade, sinto-me a desaparecer a uma velocidade tal que quase consigo senti-lo.
É que sabes, apesar de ser pouco mais do que sombra, entre a reconstrução da memória e a agnição do fracasso, consigo ainda vislumbrar reminiscências da matéria de que és feita. Nesses momentos, toda a minha humanidade estremece perante a lembrança da fogosidade da tua pele, da suavidade do teu perfume, da solicitude da tua voz e da perfeição do teu sorriso. Por instantes quase que respiro, apesar da absoluta noção de que te perdi para sempre! Ninguém consegue imaginar a falta que me fazes.

domingo, junho 18, 2017

Sobre sereias e tágides!

Pergunto-me com frequência se terás noção de que, mesmos nos teus silêncios longínquos e aparentemente envergonhados, brilhas de forma intensa como uma estrela absolutamente perfeita num firmamento quase infinito. Se já percebeste que a luz que irradias quando sorris é capaz de alumiar as mais tenebrosas vertigens de fugas que tantas vezes se dissimulam de demandas. Se consegues compreender verdadeiramente a dimensão intrínseca e perturbadora dessa tua beleza extraordinariamente magnética mas quase que certamente proibida.

sábado, abril 22, 2017

Demanda sobre o tempo perdido!


Sinto, infelizmente, que, muito provavelmente, nunca serás mais do que uma singularidade aparentemente perfeita da minha delirante imaginação mas não consigo, apesar dos indícios da minha desordeira estultícia, deixar de tentar adivinhar a matéria intrínseca dos teus mais recessos pensamentos.
É claro que não sabes mas vivo, desde que te vi, uma existência atormentada! É que não apenas não consigo desvendar os segredos dos teus pensamentos como, ao longe, por mais que esforce a visão, a audição e o olfacto, nem sequer sou capaz de perceber se o castanho é mesmo a cor dos teus olhos, se a tua voz é harmoniosa como a de um anjo ou qual a fragância que polvilha a tua pele.
São tamanhas as incertezas que, em tantos momentos, tenho vontade de estender a mão para te tocar e, através do calor da tua pele, tentar perceber se és mesmo real ou, se afinal, és apenas como uma bolinha de sabão com sabor a algodão doce. Como era bom que quisesses ser real!

sábado, março 25, 2017

Teorias de intepretação!


Sabes o que mais queria? Que me pudesses adivinhar as palavras sem que eu tivesse sequer de as pensar e que te fosse possível compreender o sentido brando e polissémico do meu rio de sorrisos.
É que será que já imaginaste quanto seria o tempo roubado ao futuro se nos soubéssemos decifrar nos silêncios e nos olhares infinitos? Talvez desse para subirmos, como colibris que mergulham e regamboleiam, as escadarias torneantes dos arco-íris. Ou, quem sabe, para observar em surdina, no breu de uma noite desértica, imortais chuvas de estrelas cadentes.
Tu sabes o que tens e só tu podes fazer: pega na chave e destranca a porta!

sexta-feira, março 03, 2017

Desejos...


Apetece-me, muito, descascar-te! Doce e demoradamente, camada por camada até descobrir se os malmequeres cheiram a pores-do-Sol e se as andorinhas bebem a Primavera.
Apetece-me, demais, encontrar-te! Nos cruzamentos, entroncamentos e rotundas. Nas passagens de nível, nas passadeiras ou nos sinais vermelhos. No frio anoso das manhãs de Fevereiro ou no calor fragrante das tardes soalheiras de Agosto.
Apetece-me, nesciamente, adivinhar-te! Entre sorrisos e sardas, expectativas e apetites, silêncios envergonhados e vestidos brancos.

terça-feira, fevereiro 28, 2017

Entre Musas!


-Responde-me, por favor, o que vês?
-O silêncio de um relógio de madeira. Uma mulher, esculpida em prata, segura, entre os seus braços, como se não o pudesse deixar fugir, todo o tempo do Mundo. Incrustações, sublimes, em madrepérola nas cercaduras do sofá de pele castanha.
-Só?
-Uma vela, derramada sobre a mesa de velho carvalho, inflama-se, doce e titubeantemente, ao som de Apollon Musagète.
-Que mais?
-Um homem, de sapatos negros, bem engraxados, sorri de olhos cerrados. Segue, placidamente, com a cabeça, o ritmo das cordas que choram alegre e esfuziantemente.
-Está acompanhado?

quarta-feira, novembro 23, 2016

Estudos sobre a memória II


Nunca, como quando me recordo de ti, tenho tão perfeita noção da minha insuperável finitude!
Talvez seja do sabor ocre do calor que sinto nas minhas mãos quando repousam em surdina numa espera infantil ou da visão mosqueada de negro e grená que me surge nas entrelinhas numa tentativa de reminiscência catártica. Talvez seja porque procure encontrar um significado perene para a imensidão de cruzamentos superados em velocidade vertiginosa ou porque sou incapaz de aceitar a minha natural incapacidade para mergulhar na profundidade do azul oceânico.
Nunca, como quando me tendo recordar de nós, tenho tão perfeita noção da representação do vazio!

sábado, outubro 22, 2016

Estudos sobre a memória


Parece mentira, mas encontro-te em todos os ângulos rectos e nas margens estreitas da memória e sou ainda capaz de te achar nos caminhos traçados a giz que descobrem a variedade escavada dos sentidos. Na anamnesia dos misteriosos sorrisos, no embriagante perfume, na brandura do toque reconheço a profundidade ateia do que foste!
Por vezes, sobes por mim acima como se fosses um arrepio! Entras na minha alma e fazes-te notar! Revelas-te no doce sal das minhas lágrimas! No entanto, sinto que o Tempo me está a pregar uma partida, como se a recordação em mim gravada não passasse de uma miragem estupidamente real impressa num futuro que nunca acontecerá ou como se a tua existência e a minha pudessem, por artes mágicas, voltar a partilhar o mesmo Universo estelar.
Não sei porque é que insistes em aparecer em todos os momentos! Não há futuro para nós, apenas um passado em que o real e o imaginário se aproximam como duas linhas paralelas que se prolongam para o infinito.

domingo, abril 17, 2016

Sophia como Eurídice

Não sou eu que não existo, és tu! Aconteceste apenas numa criação da minha ébria imaginação. Num eclipse lunar numa tarde de primavera. Numa ilusão repleta de metáforas e acúleos venenosos.
Não fomos nós que não existimos, foste tu! Nós... nós beijámo-nos de mãos dadas nas praias desertas e silenciosas! Banhámo-nos desnudos nas margens saxosas dos rios encobertos. Silenciámo-nos encostados perante a grandeza do Amor. Dissemos a verdade durante toda a eternidade.
Não sou eu que não existo, és tu! Eu... eu percorro sozinho a extensão do enorme deserto. Sento-me na sombra dos feitos de Orfeu. Choro a dor de tu nunca teres existido!

quinta-feira, maio 29, 2014

Sobre o tempo! - Variação


Vi-te, ao longe, doce e levemente perfumada enquanto sorrias, melancolicamente, em direcção ao infinito. Seguravas na mão uma purpúrea gerbéria que reflectia sóbria e perdidamente a solicitude ascética do teu olhar. O teu prefulgente vestido, pintado de tarde de Primavera, volitava e exalta-te ao som de um electrizante papagaio de papel.
Dá-me a tua mão e deixa-me abraçar-te! O futuro está à nossa espera.

sábado, abril 13, 2013

Sobre a intemporalidade...

Estou nu, asceticamente despido, sentado no cimo do penhasco enquanto contemplo o ponteiro das horas sorrindo para o infinito. Sinto-me deserto, ocupado de uma imensidão de nada, perdido! O vazio que me enche é de uma indiferença tocante, inflamado como um bloco de gelo.
Vejo-me a desaparecer. Talvez fosse apenas uma miragem, um raio de Sol numa noite de tempestade, o trago açucarado de um limão verde. É possível que nunca tenha existido, que tenha sido somente a experiência tétrica de um deus fracassado.

terça-feira, março 22, 2011

Loucos!

Descem pelos carrosséis abaixo numa vertigem descontrolada como sinetas que balem silêncios vermelhos, agarrando-se, impiedosamente, às bengalas prateadas e envoltas em álamos. Fremem latidos vencidos que entorpecem e enterram as suas mãos fechadas enquanto o sabor do sal invade o horizonte.
Perderam-se nas saliências oníricas do trovejar dos seus pensamentos. Agora, quando procuraram na imensidão alegórica da verdade, encontram apenas a sombra granítica da estultícia. Talvez por isso bailem em elipses… Sobem devagar e depois caem impetuosa e violentamente como as pétalas amarelas de um malmequer.
Confrontam a realidade como se dela fizessem parte! Porque saltam e riem, porque escarnecem e vibram, porque exultam e sofrem, porque bebem e vociferam... Mas porquê?
Agora fogem! Talvez um dia ainda regressem…

quarta-feira, dezembro 15, 2010

Sobre a tristeza!

Encontro-te pesarosa e violentamente debruçada sobre uma irrealidade fantasmagórica que te rapina, nesciamente, a fosforescente alacridade com que encantas os meus olhos quando te vejo e imagino!
Sentenciando alarvidades pejadas de espinhos de murchas rosas e estuprando a sincera beleza que emanas, caem-te as pétalas candentes num jorro de murmúrios violentos que apagam a solicitude ascética da tua verdade.
Como morrem num ápice os anteriormente maravilhosos sorrisos cantados de alecrim e manjericão! Como explodem em anarquia e dolência as palavras dantes cuspidas em bolas de sabão e balões de ar quente! Como se retraem e morrem os dedos habituados aos saltitos nervosos da excitação!
Quero encontrar-te nas saliências rochosas dos castelos de areia! Ver-te pairar sobre a consciência amorfa da irrealidade! Quero sorrir-te nos reflexos salgados do mar de prata e sentir a saudade do futuro!

segunda-feira, setembro 13, 2010

Sobre a visão!

Imagina que a Lua se suspende, inerte e pesarosa como uma cereja, no arribar da noite, na expectativa de te ver. Que se prostra perante ti e que se afogueia, com exuberância e verdade, na segurança da placidez do teu sorriso… Que abrolha de tranquilidade com a brisa do teu perfume e se enfeitiça com o teu reflexo contemplativo e sedutor. Abraça-a!

sexta-feira, julho 30, 2010

Sobre o medo!

Porque estás tão assustada? Estende-me a tua mão. Eu agarro-a e seguro-a bem dentro da minha… Espera! Eu abraço-te e protejo-te. De certeza que os meus braços são suficientemente grandes e fortes para te enlevar e te conservar bem junto ao meu peito. Não fujas!

quarta-feira, julho 21, 2010

Sobre o tempo!

Vi-te, ao longe, doce e levemente perfumada enquanto sorrias, melancolicamente, em direcção ao infinito. Seguravas na mão uma purpúrea gerbéria que reflectia sóbria e perdidamente a solicitude ascética do teu olhar. O teu prefulgente vestido, pintado de tarde de Primavera, volitava e exalta-te ao som de um electrizante papagaio de papel.
Depois perdi-te!

quinta-feira, abril 15, 2010

O ímpio

O olhar ponderoso e fugidio com que arpoava o paulatino desembrulhar dos minutos na pedregosa torre carcomida pelo tempo, causticamente ilustrava a solidariedade ufana com que se atinha com a secreta discussão em seu redor. Enquanto o ponteiro copiosamente balançava entre uma irracional correria para a hora mais próxima e uma vagarosa contemplação de bucólica placidez, mastigava o súrculo agridoce de um cigarro respirando longas e pausadas baforadas de um vermelho enegrecido e violento.
O auditório, de uma plebeia vulgaridade, observava atónito, calado e perdido, a pérfida alegria com que o indivíduo, convictamente, os ignorava. Em uníssono respirava-se dolorosamente enquanto se aguardava um qualquer sinal em que se reconhecesse a existência da colectividade. Esperava-se, quiçá, um milagre!
Talvez não pudessem mesmo esperar qualquer outra coisa que se enquadrasse melhor nesses padrões designados por normais. É que, a opacidade melódica que se lia no fundo esverdeado dos seus olhos era de um infinito aterrador, como se escondessem áugures ou quem sabe apenas mágicos curandeiros, como se albergassem uma sagrada sapiência!
De repente, como se respondesse a uma voz muda mas poderosa, o indivíduo começou a levitar. A multidão olhou-o num misto de êxtase colectivo e cepticismo patológico enquanto ele lentamente subiu até desaparecer. Talvez nunca lá tenha estado!

quinta-feira, março 18, 2010

Sobre buracos negros e afins!

Às vezes sinto a tua falta... Sinto falta da serenidade do teu abraço e recordo-me da violência com que me puxavas para ti e docemente me enlevavas no teu peito. Sinto falta da matreira solicitude dos teus lábios e da esfusiante alucinação da sua solar gravidade. Sinto falta da brandura do teu perfume, da profundeza do teu salgado olhar e da tua saudável e linear imperfeição. Talvez seja só isso, sinto falta da tua existência!
Sei que nem sequer consegues ou queres talvez imaginar mas tu eras a minha catarse e a mais urgente e viva idealidade. Representavas na minha vida uma flagrante detonação do microcosmo, uma protuberância almiscarada na realidade, a perfeição da insanidade.
Sabes, tenho receio de não me conseguir lembrar mais de ti e de te perder, paulatinamente, na infinitude da minha imortalidade. Tenho receio que essa eternidade te apague da minha memória e que com ela se consuma toda e qualquer esperança ou alegria.
É verdade, às vezes sinto mesmo a tua falta... Falta da confirmação que não me perdi como uma andorinha na expectativa da Primavera. Falta da luz alabastrina do destino. Falta da certeza de que existo e de que estou aqui.

domingo, março 07, 2010

Sobre a luta!

Pergunto-me frequentemente se não serás apenas uma viciosa consequência da minha tenaz imaginação. Se não és o resultado de uma quimera alucinógenia ou de uma misógina embriaguez psicotrópica. Se possuis física existência fora do obscuro e confuso emaranhado do conceito de ideia.
É que sabes, às vezes sabes-me a trovoada... Consigo sentir o teu paladar violento, nervoso, explosivo! Noutras vezes sabes-me a queques quentes de chocolate. Doces, fantasiosos, admiráveis! Como uma detonação filantrópica de uma miríade de confetes e melodiosas gargalhadas...
Não existe espaço nesta realidade para essa tua perfeição! É uma perniciosa insanidade conceber sequer a possibilidade de te poderes realizar materialmente. É que o universo não comportaria tal deslustra que romperia com todos os tratados existentes!